02 agosto 2013

A Profanação

Vi  dois sutiãs de Imelda Marcos. Um branco e um preto. Foi numa fotografia, é verdade, mas ainda assim, pareceu-me estar cometendo uma profanação. Por mais ditador que tenha sido seu marido, acho que a mulher merece respeito. A foto foi tirada pelo jornalista Tiziano Terzani, que trabalhava para a revista alemã Der Spiegel. Ele cobria a queda do ditador das Filipinas e conta que Ferdinand Marcos abandonou o palácio presidencial, fugindo de helicóptero. O povo invadiu o palácio. Tiziano percorreu as dependências e foi parar no dormitório de Imelda. Na época ela já se havia tornado famosa pela quantidade de sapatos e vestidos que colecionava. Não se falava de sutiãs mas também havia montanhas deles.

Quando trabalhava para a UNIDO fui designado para uma missão nas Filipinas. Eu deveria fazer um levantamento do setor têxtil para definir sua posição no contexto dos países da Asean, comunidade composta por cinco países asiáticos existente na época. Ferdinand Marcos ainda era o presidente. Foi durante esse trabalho que pude constatar o descalabro em que se encontrava o setor têxtil daquele país. O ditador controlava uma empresa de importação de tecidos a qual concorria com a indústria local. Mas esse era um problema político e o meu trabalho era no campo técnico.

Naquela época pesquisava-se a utilização da fibra da bananeira para a fabricação de tecidos. Experiências eram feitas em praticamente todos os países produtores da planta, sem grande sucesso. Nas Filipinas havia-se avançado bastante. Visitei a fábrica que obtivera os primeiros resultados práticos e produzira alguns metros de tecido. Com eles, fui informado, seria feito um vestido para Imelda Marcos.
Mas a profanação não me sai da cabeça.


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