07 maio 2013

Outra vez Saramago


Embarco num autocarro intercidades que me levará de Lisboa até Cerdeira de Côa, no Sabugal, centro do pais. Viajo com um propósito: entrevistar  Saramago, que vai  proferir uma conferência na “Associação de Municípios da Cova da Beira”.

Eu queria discutir   “A  Junta do Motor”, crônica  que ele escrevera em  em 2009, e que me havia tocado profundamente. Nela Saramago conta como, aos dezanove anos, trabalhava como serralheiro-mecânico numa oficina de automóveis:

- “Conhecia bem, naqueles remotos tempos, o funcionamento de tão generosas máquinas  de trabalho e de passeio... limpava carburadores, afinava válvulas, instalava calços e travões... , enfim, sob a precária proteção do meu fato-macaco azul que me defendia o melhor que podia das nódoas de óleo efectuei com razoável eficiência quase todas as operações por que é obrigado a passar um automóvel”

Sendo eu também mecânico, queria entender como é que ele, partindo de uma simples serralheria, havia chegado ao prêmio Nobel de literatura. Fiz-lhe perguntas que ele, pacientemente, escutou. Olhando-me intrigado, sem desconfiar, creio eu, das minhas aspirações, começou a falar, com ar complacente:

- “Não me leve tão a sério, meu jovem.  Aquilo foi um desabafo de momento, um arroubo que me levou a contar como, naquela tenra idade, fui parar dentro de uma oficina mecânica.  São lembranças de um tempo que  há muito se foi.  E são verdades. E por verdades que são,  ninguém as acredita. Conte  uma mentira e todos te crerão. Porque  vivemos hoje  num mundo de cegos. Cegos que se enxergam mas não se veem. Cegos que se apalpam mas não se sentem. Cegos que correm mas não se encontram, não saem do lugar.  Algum dia ainda vou escrever sobre isto, você vai ver.”

Eu o contemplava embevecido, sem saber o que dizer. Tentei manifestar-lhe o quanto havia gostado da sua palestra na véspera. Sem dar-me tempo de terminar, Saramago me interrompe e continua  seu raciocínio:

- “Decididamente este é um mundo de cegos. Veja esta cidadezinha. Um lugar tão pequeno e harmônico e, no entanto, cheio de ciúmes e rivalidades que acabam por  minar-lhe  a paz e o convívio social. Acabo de saber que o Senhor  Antonio Ruas está indignado por ver o que se passa na sua região. Segundo li, ele  preside a  AMBC – Associação dos Municípios da Cova da Beira  -  e é, também, editor da  Capéia Arraiana, a qual, segundo suas palavras: “procura defender os interesses da Região que vai do Sabugal e do Distrito da Guarda, movido à paixão pela Raia, pelas terras do Forcão, pelas Serras da Estrela, da Malcata e das Mesas, pelo Rio Côa e pelo povo valoroso que luta pelo futuro de uma região que alguns querem condenar ao fracasso”.
 Saramago guardou silêncio por algum tempo. Depois  continuou:
-“Veja bem: - um povo valoroso,  uma luta pelo futuro, e alguns que querem condenar tudo ao fracasso. É demais! Tão pouca gente e tanta briga. São problemas paroquiais, nada posso fazer.”

Suspirou, como quem retoma o fôlego. Depois olhou-me com  ar esperançoso e continuou:
-“Mas nem tudo está perdido, meu rapaz.  Descobri que aqui mesmo, em Cerdeira de Côa, são produzidos os melhores caracóis de Portugal. Já veem limpos e cozidos”.  Hesitou por um momento.  Deu meia volta e apanhou um papel que me entregou dizendo:
 -“Faça bom proveito, meu rapaz” – e antes que eu tivesse tempo de olhar o papel desapareceu da sala. 
Meti o papel no bolso e caminhei cabisbaixo  até o meu albergue. Pensativo, desabei, sobre uma poltrona. Abri o papel e encontrei esta

Caracoleta Deliciosa
Você vai precisar de: manteiga, alho, cebola, salsa, caldo de galinha, molho de soja e, obviamente, caracóis. ( Os da  Cerdeira de Côa, fornecidos pela Caracol Real, são os melhores). Basta refogar o alho e a cebola na manteiga, acrescentar os demais ingredientes e, por fim os caracóis.

Como te invejo, Saramago, como te invejo!


Um comentário:

Anônimo disse...

Fato macaco é o macacão de brim que se usa nas oficinas mecânicas?