28 janeiro 2013

A infância sem mácula


Eu descia pela trilha que parte do povoado de Nistisí, no alto da montanha, e desce até alcançar as margens do lago de Iseo nos contrafortes dos Alpes italianos. É um caminho íngreme que servia de estrada para as mulas no transporte do trigo. Quatro ou cinco moinhos distribuídos ao longo da encosta utilizavam, sucessivamente, a água do riacho que se formava no topo da colina. As mulas traziam, de volta, a farinha. Depois que se construiu a estrada asfaltada, a trilha permaneceu intata serpenteando montanha abaixo à sombra dos bosques e coberta por pedregulhos arredondados, fruto da passagem das águas do degelo através dos séculos.

Eu trazia, pela mão, o Luca, uma criança de seis anos. Caminhávamos em silêncio. Em determinado momento, o menino parou. Largou a minha mão e ficou contemplando o solo. Esperei, em silêncio, curioso para ver o que faria.

- Quantas pedras! O que será que tem lá dentro?

Retomou a minha mão e continuamos a descida. Notei que ele não esperava resposta. Eu me mantive em silêncio pelo resto do caminho. Fiquei imaginando qual seria o seu espanto se eu lhe mostrasse, de repente, uma pedra partida ao meio com um fóssil de peixe como as encontradas na Chapada do Araripe ou em uma das tantas pedras de ágata com seu interior oco revestido de cristais coloridos. Mas eu não lhe disse nada. Eu não podia explicar isso e preferi não interferir nos seus pensamentos, na sua busca pela descoberta.

Esta imagem nunca me saiu da memória. E eu me pergunto, tantos anos depois, se ela poderia ocorrer a uma criança nos dias de hoje, ocupada o tempo todo com joguinhos no celular ou comendo as batatas da onda. Sufocadas pelo requinte das tecnologias do entretenimento, nossas crianças estão perdendo a sensibilidade para as coisas simples, a curiosidade pelos fenômenos da natureza, a habilidade no uso das mãos. Desenvolveram, isto sim, uma destreza invejável para abrir os pacotinhos de bombom e quadradinhos de milho e gordura que os avós, cúmplices, não conseguem.

No Japão, onde a tecnologia do entretenimento mais se desenvolveu, o homem comum ainda mantém hábitos saudáveis. Lá, se costuma sentar para contemplar a lua, permanecer em silencio para ouvir um  grilo cantar ou debruçar-se para riscar desenhos num canteiro de areia. Lembro-me de uma noite em Tókio, num daqueles jantares festivos em um restaurante no meio de um parque. Havia um lindo jardim formado por enormes pedras arredondadas que se haviam transformado em verdadeiros globos iluminados. Estavam cobertas por vagalumes que faiscavam. Recebemos, cada um, uma pequena gaiola contendo uma folha de alface. Recolhemos alguns vagalumes e voltamos para os nossos quartos com a responsabilidade de depositá-los, no dia seguinte,  junto à primeira planta que encontrássemos.

Sou grato ao Luca por me ter proporcionado este pouco de introspecção  filosófica. Ele hoje está crescido, mas ainda é um pré-adolescente. E continua com a mesma inquietação pela pesquisa, a mesma curiosidade pelas coisas e a serenidade dos sábios. Com ele há muito que aprender.

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