07 março 2012

Que milho é esse?


O milho ocupa um lugar preponderante  na alimentação do mundo ocidental. As populações rurais do norte da Itália sobreviveram a guerras e invernos graças à sua polenta. Na América Hispânica as tortilhas estão nas mesas todos os dias. Os índios da América Central consideram-no um alimento sagrado e a ele dedicam suas festas e seus rituais. Na vida moderna o milho ocupa um lugar de destaque graças à sua transubstanciação,  que resultou nesse milagre organoléptico a que demos o nome de “cereais matinais”.

Acompanhei, durante anos, a FISPAL, uma feira internacional de alimentação que se realiza  em São Paulo. A cada ano crescia  minha curiosidade por uma máquina que, verdadeiro milagre de sincronização de movimentos, cuspia, com grande velocidade,  saquinhos coloridos e perfumados. A primeira máquina que vi tinha cerca de 4 metros de comprimento. Ao fim de uma década, à custa de aperfeiçoamentos e inovações tecnológicas, alcançava mais de 20 metros.
Essa máquina produzia aquelas coisinhas deliciosas e crocantes que encantam as crianças e que mães e avós usam como instrumento de suborno. De formatos diversos e cores de fazer inveja ao arco-íris, elas vão desde os inocentes flocos de milho até uma imitação de batata frita, bolinhas com aroma de chocolate e chips com sabor torresmo. São todas feitas de milho.

No processo a farinha de milho é alimentada por uma tremonha situada na cabeceira da máquina. Passa por vários compartimentos, onde recebe doses indecifráveis de pós e líquidos que definirão o produto final. Já em forma de pasta é introduzida em  câmaras de cozimento e daí para uma extrusora / cortadora, que dará formato ao produto. A partir daí, abas, paletas, placas, helicóides e outras engenhocas tricoteiam saquinhos coloridos que caminham disciplinadamente para dentro das caixas, prontos para a expedição. Levam, no cangote, a mensagem: “Impossível parar de comer”

Tenho observado, no café da manhã, a avidez com que as crianças trituram aquelas bolinhas crocantes e ouço, consternado,  suas mandíbulas barulhentas. Na mesa não há frutas, não há sementes, não há raízes, não há pães, não há laticínios. Somente bolinhas e refrigerantes. Entre parentes e amigos sempre censurei mães e avós por contribuírem com  esse desmando. Só ganhei inimigos.

Finalmente, encontrei alguém – e não é um médico – que, com experiência, conhecimento e coragem, escancara as feridas dos nossos hábitos alimentares:
 Kenneth Rogoff, professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Harvard e ex- economista chefe do FMI, em um longo artigo intitulado “Capitalismo Coronário” discute a necessidade de uma reforma no sistema capitalista atual e mostra que o problema transcende às questões ligadas ao sistema financeiro
Kenneth explica :
“Considere a indústria alimentícia e particularmente sua, às vezes, maligna influência sobre a saúde e a nutrição. As taxas de obesidade estão subindo em todo o mundo”.
O professor analisa, em seguida, a ligação entre a indústria alimentícia e  problemas mais amplos do capitalismo e estabelece  correlações entre obesidade, doenças cardiovasculares, câncer e expectativa de vida.
Por fim, Kenneth  Rogoff  apresenta-nos um diagnóstico contundente:

“Produtos alimentícios baseados no milho e com muitos aditivos químicos são reconhecidamente, um dos maiores indutores do ganho de peso; mas, de uma perspectiva convencional de contabilidade de crescimento, são uma grande coisa. O agronegócio é pago para cultivar o milho (frequentemente subsidiado pelo governo), e os processadores de alimentos são pagos para adicionar tonelada de químicos para criar um produto formador de hábito – desta forma, irresistível. Ao longo do caminho, cientistas são pagos para descobrir a melhor mistura de sal, açúcar e químicos para tornar o último alimento instantâneo viciante ao máximo; publicitários são pagos para criar interesse em torno dele; e a indústria farmacêutica faz uma fortuna tratando das doenças que dele inevitavelmente resultam.
 O capitalismo coronário é fantástico também  para o mercado acionário, que inclui companhias de todas essa indústrias. Alimentos altamente processados são bons também para criação de empregos, incluindo os de ponta em pesquisa, propaganda e saúde”


4 comentários:

Anônimo disse...

Li o artigo inteiro do Kenneth. É formidavel.

Augusto disse...

Prezado parceiro de pastel se shitaki com cerveja: os comentarios sobre milho, aipim e sugiro continua-los falando sobre as diferentes variedades do grão e da raiz.
Augusto (augustofriburgo2009@gmail.com)

Fernando Spreafico Braga disse...

Muito bom, realmente nos faz pensar!
Adicionalmente as taxas aceitáveis dos índices do nosso organismo como glicose, colesterol e outros variaram, provavelmente mais do que realmente deveriam, por vislumbrar em números reais, a quantidade, o volume de vendas que poderiam alcançar. Assim por exemplo, algum tempo atrás o nível aceitável de glicose era 120, de repente virou 100, o quanto real e/ou científico são os novos valores ou o quanto estão carregados de argumentações que teoricamente serão inquestionáveis pois teoricamente estão preocupados em uma saúde melhor, mas no mínimo são valores questionáveis até pela homogeneidade da aplicação. De toda forma, para o mercado farmacêutico seria possível mensurar com bastante precisão o volume de vendas possíveis a partir dos dados coletados pelos exames a parcela que seria atingida e portanto compelida a consumir as drogas que os levariam para a nova faixa definida como saudável.
Prosseguindo com o mesmo requinte daquele que deu a ideia de aumentar em 10% o diâmetro da saída do tubo da pasta de dente e com isso aumentou em 10% as vendas, redefiniram o novo nível aceitável da glicose para o requinte de 99%, ora em números esse deve ser até maior do que a primeira mudança anterior porque esse provavelmente pegou quase a totalidade dos seres humanos no planeta (estou somente pensando alto não tenho dados concretos para essa desconfiança).
Enfim, realmente esse artigo diz muito, e nos coloca seriamente em cheque por essa forma desenfreada que estamos sendo levados a viver, precisamos repensar, se indignar, e dar alguns passos atrás.
Observando a Europa, estou convencido que o modelo de vida que eles ainda mantém parece mais saudável, muitos com suas plantações familiares, pequenas, me parece que estão em certo equilíbrio, meio que cada um faz um produto e todos conseguem um pouco de tudo, mesmo aqueles que moram em apartamento tem um pedaço de terra para cultivar sua horta... Assim, acho que essa industrialização desenfreada parece que já ultrapassou seu ápice e agora estamos experimentando uma perda acelerada na qualidade de vida, como defende o cientista chileno Max-Neff. E olha, ele falava isso em 1993!
http://www.parceirosvoluntarios.org.br/Componentes/textos/TextosVPJ.asp?txTx=77&iRnd=0,0553%D8

(abril de 207)
"Manfred Max-Neef: Segundo a Teoria do Umbral, que criei com meus colegas há 15 anos, o crescimento econômico está alinhado à qualidade de vida de uma sociedade somente até certo ponto. Depois disso, a tendência é que ele se torne maligno ao bem-estar das pessoas. Essa teoria foi comprovada em todos os países onde realizamos o estudo, como Estados Unidos, Inglaterra, Holanda, Suécia, Áustria, Dinamarca, Chile e Tailândia. Todos eles tiveram um grande período de crescimento econômico e desenvolvimento até o ano de 1970. Após essa data, o nível de qualidade de vida da população começou a cair."...

Fernando Spreafico Braga disse...

Mais de Manfred

01/05/2007
http://www.fnq.org.br/informe-se/artigos-e-entrevistas/entrevistas/manfred-max-neef-defende-uma-economia-a-servico-da-sociedade

Manfred Max-Neef defende uma economia a serviço da sociedade

Aos 70 anos, o economista e ambientalista Manfred Max-Neef bem que poderia se acomodar no cargo de professor da Universidade Austral do Chile, mas quem já teve pelo menos um breve contato com esse polêmico e inovador pensador latino-americano sabe que isso seria impossível. Inquieto e determinado a sempre dizer o que pensa, Max-Neef viaja pelo mundo divulgando sua crença de que a economia tem de estar a serviço da sociedade, e não o contrário. Seu mais novo trabalho foi lançado no dia 20 de março de 2007, na Alemanha. Ele e outros 49 pesquisadores formaram o World Future Council (WFC), organização que pensa em como será o mundo pautado pelas questões socioambientais, e produziram um livro coletivo. A obra, intitulada O futuro é possível: saídas do caos climático, ainda não tem data para chegar ao Brasil. O País, no entanto, teve a oportunidade de conhecer Max-Neef pessoalmente durante sua passagem de três dias por São Paulo, como palestrante principal do 15º Seminário Internacional Em Busca da Excelência.

No evento, ele falou sobre a atuação dos líderes na escala do desenvolvimento humano e propôs um desafio que põe abaixo o modelo tradicional de valorização da liderança voltado para o aumento do faturamento das empresas. Max-Neef não acredita em crescimento, mas em desenvolvimento e já explicou isso na Teoria da Economia Descalça e na Tese do Umbral, suas mais importantes e conhecidas formulações teóricas. Para ele, lucratividade sem foco nas pessoas não se sustenta.