03 maio 2011

A morte como ela é

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José Renato morreu ontem. 
O criador do Teatro de Arena de São Paulo, diretor de “Eles não usam black-tie”  e  “Chapetuba Futebl Clube”, Zé Renato, que revolucionou o teatro brasileiro em 1953, faleceu na madrugada de ontem, em pleno trabalho, aos 85 anos de idade.
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A noticia foi dada por uma espécie de necrológio não assinado, publicado na página 2 do Segundo Caderno de “O Globo” de hoje, dia 3 de Maio de 2011. Inexplicavelmente, o clássico “Obituário” que traz uma resenha biográfica dos mortos famosos, no caderno principal, não apareceu. ( o último foi o de Neuzinha Brizola, 56 anos, em 28 de Abril). O crítico de teatro Hersh Basbaun, citado na notícia, explica a importância de José Renato no teatro brasileiro:
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“Inaugurava uma nova estética, a qual, quando comparada com TBC, o must da época, provocava mil reflexões. Não bastasse isso, deu início a uma nova dramaturgia, pondo no palco o trabalhador brasileiro, arriscando-se a lançar um novo autor, o ítalo-brasileiro Gianfrancesco Guarnieri. Não parou por aí, encenando Vianinha, Chico de Assis e convidando Boal para a equipe”.
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José Renato se aposentou em 1966, quando dava aulas de direção na UniRio. Mas o que há de mais notável na vida desse homem é a sua morte. Aos 85 anos ele volta aos palcos atuando na peça “12 Homens e uma sentença” dirigida por Eduardo Tolentino em São Paulo. O diretor conta que na última representação de que participou, domingo dia 2, Zé Renato enxertou um caco na sua fala. Referindo-se a outro personagem, um velho, em lugar de dizer “o velho só queria atenção” ele diz: “ o que o velho queria era um pouco mais de tempo”. A notícia termina: 

“Após a sessão, José Renato jantou com o elenco. Em seguida uma amiga levou-o para o Terminal do Tietê onde tomaria o ônibus de meia noite para o Rio. Passou mal, foi levado ao pronto socorro, mas morreu de infarto na madrugada de ontem. O enterro será hoje no cemitério do Morumbí”
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Assim é a vida. Assim é a morte. Ou, como ela deveria ser.

Nota: Peço desculpas ao diretor  Eduardo Tolentino por ter dado uma  interpretação própria à fala de Zé Renato. O que ele chama de “ato falho” eu chamei de “caco” , uma ação deliberada,  premonitória.


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