25 novembro 2010

Didelphis Marsupialis

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Era uma família feliz. Com três membros apenas não havia lugar para discussão. Estavam sempre de acordo. Quando chovia e quando fazia sol. Quando tinham o que comer e quando não.

O Pai, já avançado na idade, percebia que os tempos estavam mudando. O campo já não era mais o mesmo. Da numerosa prole só restava o Filho. A Mãe, dedicada matrona, depois de criar nove rebentos viu-os desaparecer um a um vitimados, suspeitava ela, pelas plantas venenosas que comiam no mato.

-- Pai, eu ontem entrei no telhado da Casa Grande. Eu desci e vi a cozinha. Estava cheia de banana e araçá !

-- Você tem que tomar cuidado, Filho. Se você escorregar e cair lá dentro, não encontrará mais a saída para voltar para casa e será apanhado.

-- Eu escutei o Dono falar que vai contratar mais gente para matar os insetos que são as pragas da lavoura.

-- Filho, não existem pragas na lavoura. O que existe na lavoura são insetos famintos. Tão famintos quanto nós, o Dono e sua família, e os seus empregados, e as onças brabas, os tamanduás e as formigas que eles comem, e os sabiás que cantam o dia inteiro, uma grande alegria que temos nesta fazenda.

Todos precisam ser saciados. E a Natureza pode fazer isso. Mas quando o Dono começa a matar os insetos ele está destruindo a própria Natureza. Porque os insetos que ele mata voltam como almas penadas e se penduram debaixo das folhas para chorar sua morte. E as folhas onde as almas penadas

se penduram murcham e depois secam. Você não viu o inhame, o milho e a macaxeira? Estão secando.

-- Mas, Pai, o Dono não sabe disso?

-- Nem todos sabem, Filho. E, como ele não pode ver as almas penadas, não entende o que está acontecendo. Então, bota mais veneno ainda porque acha que botou pouco. Só que as almas dos insetos não morrem porque são espíritos e não precisam de comer folhas para se alimentarem. Então o veneno fica na planta. E vai para a mesa de todos.

-- Se eu comer aquela banana eu morro?

-- Você não morrerá na hora mas irá enfraquecendo e apressará a sua morte. Nossa família já foi maior, você sabe. Seus irmãos mais novos morreram todos porque comeram desde cedo frutas contaminadas.

Passou o tempo. Certa manhã, quando se recolhiam para dormir, disse a mãe:

-- Pai, já é manhã tardia e o Filho ainda não voltou. Estou preocupada.

-- Durma tranqüila. Vou procurá-lo hoje à noite, quando sair à procura de comida.

Naquela noite o Pai saiu. Não foi à procura de alimento mas á procura do filho. Vagou a noite inteira. O olfato não era mais o mesmo de quando era jovem, mas conhecia bem as trilhas. Não encontrou rastro.

Ao alvorecer os raios de sol cobriam de ouro os cachos das bananeiras. Ouro maldito que minava a saúde dos próprios trabalhadores que o produziam.

O Pai caminhava cautelosamente por entre as touceiras. Sabia que, à luz do dia, arriscava-se a ser descoberto pelos trabalhadores. Já tarde, cansado, acomodou-se junto à uma pedra. Descansou. Sem mais esperanças, com lágrimas nos olhos , retomou a volta para casa.

A meio caminho o velho gambá encontrou o Filho deitado junto à uma bananeira, os olhos fechados e os maxilares entreabertos. Um filete de sangue escorria-lhe pelo canto da boca deixando na terra a marca do Homem.





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