16 setembro 2010

BEM ESTÁ O QUE BEM ACABA

Do alto da Vila Maria até a margem do rio Tietê caminhava-se meia hora. Alcançava-se, pela margem direita, à montante do rio, um lugar onde se formava uma pequena enseada. A areia acumulada pela correnteza na curva do rio sugeria uma pequena praia, abruptamente interrompida por um barranco com cerca dois metros de altura. Nesse ponto o rio era profundo e ali fazíamos nossos mergulhos e “saltos ornamentais” dos quais saíamos, freqüentemente, com os costados em brasa. De vez em quando escapávamos todos de casa - éramos uma patota de cerca 15 moleques entre os 8 e os 14 anos - e íamos tomar banho no rio sem avisarmos nossas mães, obviamente. Não é preciso dizer que tomávamos banho completamente pelados. Em ambas as margens do rio o matagal era denso. Deixávamos a nossa roupa amufumbada no meio das moitas. Cada um sabia exatamente qual era sua posição. Um dia foi muito especial no nosso balneário. Fizemos apostas para ver quem teria a coragem de atravessar o rio, sabendo que a volta também teria que ser a nado. Ninguém se atreveu. Eu andava aí pelos onze anos. Não queria fazer feio. Demorei para tomar a decisão. Era preciso avaliar a força da correnteza para calcular onde eu iria parar na outra margem e, a partir daí, escolher o ponto de saída. Atirei-me. Alcancei a outra margem no lugar previsto, mas não esperava encontrar uma macega de juncos que me dificultava o acesso à terra firme. Faltava menos de dois metros e eu não conseguia me desembaraçar. O pavor, talvez, da morte, deu-me alento e, num impulso desesperado, alcancei o solo. Exausto, ofegante, enquanto descansava, fiquei observando aquela correnteza que poderia ter levado consigo o meu triunfo. Fiquei com medo de voltar. O tempo passava e eu sonhava. E o tempo passava. Não havia saída. A volta ao bairro pela outra margem era impensável. Fiquei olhando os garotos do outro lado, esperando deles uma palavra de apoio. Imaginei que o meu heroísmo desencadearia gestos de solidariedade, gritos de incentivo, apelo aos santos, qualquer sinal de vida. Estavam todos entretidos em seus mergulhos, rindo, gritando e muitos retornando, sem olhar para trás. Nada. Ninguém sequer me notava. Abandonado! Lancei-me na água com toda a fúria e consegui alcançar a outra margem no centro exato da enseada. Quando cheguei não havia mais ninguém na pequena praia. Ainda vi, pelas costas, o último menino enveredando pela trilha que conduzia ao centro do bairro. Contemplei, triunfante, o rio Tietê, com um misto de medo, orgulho e imensa alegria. Fui em busca da minha roupa. Encontrei o lugar vazio. Entrei em desespero. Não podia atravessar o bairro nu em pelo. Eu nada podia fazer a não ser chorar. E foi entre soluços que consegui divisar a silhueta de um dos meninos, meu vizinho de casa, que se aproximava. Trazia umas cartas de baralho na mão. - Luis, estas cartas não são tuas? As que a gente usa pra jogar? Eu encontrei espalhadas no caminho. E, vendo-me nu: - Roubaram a tua roupa, è ? Foi por isso que jogaram as cartas fora! - Toninho, que sorte que você voltou! Corre lá em casa e pede a minha mãe pra mandar uma roupa. O Toninho se aproximou da casa cheio de precauções e encontrou minha mãe no portão da rua, aflita, olhando o infinito, à espera do filho. Aproxima-se, hesitante, e gagueja: - Dona Terezinha... Dona Terezinha... né... o Luis... né... foi tomar banho no rio...né... Dona Terezinha desabou no chão de terra. Toninho deixou minha mãe entregue aos cuidados do meu irmão mais velho, sob os impropérios deste, e trouxe-me as roupas que me aqueceram a alma. E eu atravessei o bairro, altivo e exultante, sem me dar conta do desespero que havia criado em casa. Quando cheguei encontrei minha mãe sentada na sua cadeira, imóvel, seus grandes olhos negros fixos no espaço. Sem desviar o olhar ou dizer uma só palavra puxou-me pelos ombros e apertou-me com força contra seu peito. E eu senti a dor do amor. Uma dor que eu sinto até hoje. Luigi Spreafico

2 comentários:

Babi disse...

Às vezes sem sabermos acabamos causando o maior conflito, mas quando entendemos o que fizemos e o que causamos a pessoa, ás vezes entendemos o que foi o 'sem querer'. Nesse caso o alivio que a mãe sentiu foi uma prova de amor, algo inesquecível.
Adorei vários textos, bjs Bárbara

Babi disse...

Aplausos para um blogueiro. rs