10 fevereiro 2009

OS BONDES DO VERISSIMO

No Domingo 28 de Setembro de 2008 embarco na Estação Rodoviária Novo Rio com destino a Nova Friburgo. Como de hábito, a Viação 1001 me oferece os jornais do dia. Apanho o primeiro que me aparece. É “O Estado de São Paulo”. A Primavera já começara, mas só no calendário. Uma neblina espessa induzia ao devaneio. A viagem se arrastava melancólica. Entediado, resolvo passar os olhos pelo jornal. Abro o Caderno de Cultura e vejo, com espanto:
"Veríssimo Mais bondes"
O que teria Luis Fernando Veríssimo escrito sobre bondes, com aquele seu estilo inconfundível, sua lucidez na apreciação dos fatos, sua ironia ferina? Comecei a ler sua crônica com sofreguidão comparando palavra por palavra, gesto por gesto, os bondes de Porto Alegre com os da Vila Maria da minha infância em São Paulo. E, claro, não pude deixar de evocar “Seu Albano, o Salvador” postado à poucas páginas daqui em (felizmente) 28 de Novembro de 2006. Com a sabedoria que Deus lhe deu e que aprimorou com o suor do seu rosto, Veríssimo extrai, de seus bondes da juventude, ensinamentos sobre formação do caráter, definição de personalidade e autoestima . Reportando-se a uma sua crônica anterior, ainda sobre bondes, Veríssimo diz que...
“Sem querer perfurei um veio de saudades. Muita gente manifestou as mesmas lembranças afetuosas, que talvez sejam apenas saudade não dos bondes mas do que nós éramos. Acima de tudo, mais jovens.”
Logo me veio à mente a euforia com que eu, já perto dos dezoito anos, me sentava no banco de um bonde com um livro recém comprado e puxava do bolso traseiro um pente de ebonite, marca "Guarani", para cortar as folhas da brochura confeccionada em papel pardo, do qual emanava um aroma quase afrodisíaco. Veríssimo continua sua análise:
“Os bondes ensinavam destreza, coragem e autoconfiança. Um dos períodos mais importantes da minha vida foi dedicado à preparação psicológica para a minha primeira ( e, pensando bem, última) grande prova de bravura, subir no estribo com o bonde andando. Correspondia ao encontro solitário de um guri pré-histórico com o seu primeiro bisão. Depois disso você era um homem. Não precisava ter ninguém olhando. Subir no bonde em movimento era um triunfo pessoal e particular. Você se provava para você mesmo.”
Na Vila Maria nós fazíamos o contrário, pulávamos do bonde em movimento, competindo até que saísse o campeão, aquele que descesse por último. Mas Veríssimo, tem um conceito diferente e arrasa com o nosso heroísmo:
“Descer com o bonde em movimento não era nada, uma menina conseguiria. Bastava continuar correndo depois de tocar com os pés no chão. E pular para a calçada antes que o carro que viesse atrás fizesse você voar."
Não sei não... era tudo uma questão de velocidade. Se, ao subir, a velocidade estivesse acima do que você podia suportar você arrebentaria os maxilares na balaustrada do bonde. Ao descer, você planaria como um hidroavião no asfalto e estouraria a cabeça no primeiro poste. Seja como for, conclui o grande mestre:
“Devo às viagens no veículo o que me sobra de equilíbrio e introspecção filosófica. Volta e meia falam na volta dos bondes. Sou a favor. Não sei se eles melhorariam o nosso trânsito, mas certamente melhorariam o nosso caráter.”
Devo ao Veríssimo muito equilíbrio e um pouco de introspecção filosófica, não tanto pelos bondes da minha infância mas, principalmente, pela leitura de sua crônica.

Um comentário:

Marcio disse...

Luigi, fiquei nas 2 crônicas, impressionado com o teu lado épico. Fico feliz que por 'dentro' de tua prudente seriedade haja um desvairado épico, que ama 'à Ventura'; se é que assim se escreve... Parabéns pelo desvario de ousar a mudança, o salto, e pouso ousado no 'novo', mesmo que com aterrissagens meio forçadas... Afinal, saltar é preciso, sobretudo do passado ao novo... Abração; dedé