17 julho 2006

O CAMINHO DE COMPOSTELA




Meus amigos: Vou estar ausente por dois meses. Depois de tanto tempo garimpando entre bites e baites, daunilodes e apilodes, e receber ameaças do tipo: “Erro fatal. Se você apertar novamente controlaltidel todos os seus dados serão apagados, sua poupança será confiscada, e sua família será excomungada. Clique “finalizar” para sair de fininho, ou, para sair com dignidade, volte à sua terra natal, beije os pés do padre e cuspa três vezes na porta do cemitério entre meia noite e uma hora (pelo lado de dentro)”. Percebi que estava no caminho errado. Decidi, então, tomar o caminho certo. E esse caminho só podia ser de Santiago de Compostela. Observei que muita gente se deu bem depois de fazer essa peregrinação. Por que não eu? Nunca li Paulo Coelho, a não ser por pequenas notas e historietas, tipo assim, “pingos de sabedoria”, publicadas em revistas de domingo de jornais de grande circulação, Mas o resultado dos seus escritos está aí para quem quiser ver. O sucesso que o envolveu após a peregrinação a Compostela é indiscutível, pois, feita há tantos anos, repercute até hoje, e ainda lhe rende assunto para as tais notas domingueiras. Soube que até o Clinton (aquele que foi condenado ao onanismo), era seu leitor. Como a minha principal virtude é a inveja, minha alma se incendiou. Resolvi, imediatamente, fazer a peregrinação a Compostela. Munido de guias, panfletos e consultas exaustivas a agências de turismo, comecei a preparar o meu “budget” (foi assim que me ensinaram na agência de viagens). Nada de extraordinário, apenas o trivial: algumas saladas acompanhadas de presunto Capa Negra, muitas paellas, as tapas imperdíveis da Andaluzia, uma rápida passagem pelo “El Buli”, em Barcelona (ir a Santiago e não dar uma esticadela para cumprimentar o Ferran Adriá, poderia comprometer todo o meu o processo de elevação espiritual). Acompanhariam as manducações diárias umas quantas taças de Rioja, um ou outro Valdepeñas, depois viriam os Tempranillos, principalmente os da Tierra de Extremadura e, glória final, um Pata Negra Gran Reserva, safra 95, um homônimo do grande presunto. Não mencionei os jerez (finos, olorosos e amontilados ) porque, como estes são tomados antes e depois das refeições e durante o dia, nos momentos alegres e tristes, (o que é a vida senão uma sucessão de momentos alegres e tristes?) mereceriam um orçamento em separado. Feitas as contas, ao contemplar o resultado, o líquido que circula na medula espinhal se me congelou, e eu fiquei algum tempo sem poder mover o pescoço nem bater as pestanas. O raciocínio, “sin embargo”, continuava funcionando. Na Espanha eu não tenho parentes que me possam hospedar e não creio que fosse possível, nos dias de hoje, bater à porta de um mosteiro e pedir abrigo para um peregrino faminto. Como não me deixo abater facilmente, encontrei um caminho alternativo. Vou fazer o Caminho da Mortadela, uma rota que corta a província de Bolonha, entre vinhedos e olivais. No lugar do Capa Negra (o presunto) terei de me consolar com a redonda mortadela, que tanto alegrou minha penosa infância e que aqui empresta seu nome ao que será , um dia, um famoso roteiro. Quanto aos vinhos, me contentarei com um Amarone della Valpolicella e, quem sabe, um Brunello di Montalcino. Um pouco mais ao norte, com muita sorte, quem sabe, toparei com um Gewurztraminer do Alto Ádige para acompanhar os peixes do Lago D’Iseo. Mas, uma coisa vou fazer, com certeza: dar uma esticadela até San Gemininiano para, no interior de suas muralhas medievais, saborear uma polenta taragna. E, aí, com todo o respeito, vou pedir um Gattinara, safra 94. Não sei o quanto esta peregrinação vai me engrandecer o espírito. Mas o corpo, certamente, voltará engrandecido. Até a volta!

4 comentários:

Anônimo disse...

Estou precisando fazer um apigreide espiritual. Se voce me arranjar hospedagem gratis eu também vou nessa.
(a) Um amigo espiritoso

Anônimo disse...

O Espirito sempre viaja...o tempo todo, mas o corpo só o acompanha quando está acordado. Agindo e reagindo as forças da matéria.
Espirito, nome esquisito para a essência do EU, nome esquisito para um Íntimo tão Nobre, independente do estágio evolutivo no qual se encontra. Nobre!!!
Que Deus o acompanhe e o ILUMINE nessa jornada. Não apenas para escrever livros, mas, livros escrver para comunicar aos viventes na terra que morre, Um despertar para o iVer...ReNascer!!!
A Vida aqui na Terra é prendizado! Quem aprende não deve chorar os erros, mas AGRADECER pelo APRENDIZADO. Pedir perdão com humildade, sem sentir vergonha!!!
Perdoar, mesmo sem a solicitação do Perdão...Amar Sempre.
Abraços, Luz e Felicidade. Você É Especial!!!

Luigi Spreafico disse...

No suplemento Rio Show, de O Globo de 08/12/06, o crítico de cinema Rodrigo Fonseca ao comentar o filme "O Ilusionista", diz o seguinte:
"Em tempos de Harry Potter, a magia se acostumou a ser tratada como pura 'paulocoelhice' pelo cinema. Virou, mexeu, surge um místico tecendo receituários de auto-ajuda." ... Para meditar.

Fernando Spreafico Braga disse...

Este caminho da mortadela, não tem preço!